A Hemimelia Fibular, também conhecida como deficiência longitudinal congênita do perônio, é a anomalia congênita mais comum dos membros inferiores, caracterizada pela ausência parcial ou total do osso perônio (fíbula). Sua incidência é estimada em cerca de 1 em 50.000 nascimentos, embora alguns estudos sugiram uma frequência maior. A condição é geralmente esporádica e unilateral (80% dos casos), sendo a bilateralidade menos comum. Sua etiologia é complexa e multifatorial, envolvendo fatores genéticos e ambientais, embora o mecanismo exato ainda não seja totalmente compreendido. Clinicamente, a Hemimelia Fibular apresenta um espectro de gravidade que vai desde uma deficiência peronial leve até a ausência completa do osso com deformidades associadas graves. A apresentação típica inclui: encurtamento da perna (discrepância do comprimento dos membros inferiores), deformidade do pé (frequentemente equinovaro ou pé torto congênito), instabilidade do tornozelo, e ausência ou hipoplasia de raios laterais do pé (dedos). O joelho e o quadril também podem ser afetados em casos mais graves.
O tratamento cirúrgico da Hemimelia Fibular é complexo, individualizado e tem como principais objetivos restaurar o comprimento e o alinhamento do membro, estabilizar o pé e o tornozelo e maximizar a função. O tratamento cirúrgico pode seguir duas vias principais, dependendo da gravidade e da expectativa funcional. Para casos menos graves, ou quando o potencial de crescimento é bom, a reconstrução do membro pode ser realizada. Este procedimento envolve osteotomias de correção e, crucialmente, o uso de fixadores externos circulares, como o aparelho de Ilizarov ou similar. O fixador externo permite a osteogênese por distração (alongamento ósseo gradual) para corrigir a discrepância de comprimento e as deformidades angulares ao longo de meses. Em casos mais graves, especialmente aqueles com deformidades significativas e irredutíveis do tornozelo/pé, a amputação (syme ou boyd) seguida de protetização pode ser considerada para alcançar um melhor resultado funcional a longo prazo.
O prognóstico para pacientes com Hemimelia Fibular varia amplamente e está diretamente relacionado à gravidade inicial da deficiência (classificação de Achterman e Kalamchi), à presença de anomalias associadas e à escolha do tratamento. Com as técnicas modernas de alongamento ósseo e reconstrução usando fixadores externos, muitos pacientes alcançam uma excelente função, com a preservação do membro e uma significativa redução na discrepância de comprimento. No entanto, o tratamento reconstrutivo é um processo longo e desafiador, exigindo múltiplas cirurgias, um longo período de reabilitação e um grande comprometimento por parte da criança e da família. Mesmo após o alongamento, a recorrência da discrepância pode ocorrer durante os picos de crescimento. A amputação, embora mais invasiva, frequentemente proporciona um retorno mais rápido à atividade e resultados funcionais previsíveis, especialmente em casos muito graves. O acompanhamento ortopédico deve ser contínuo até o final do crescimento.