
A fratura do fêmur distal é uma lesão que ocorre na porção metafisária e/ou epifisária do fêmur, próxima à articulação do joelho. Sua epidemiologia apresenta uma distribuição bimodal característica, afetando dois grupos etários distintos. O primeiro pico de incidência ocorre em pacientes jovens e ativos, predominantemente homens, resultante de traumas de alta energia, como acidentes automobilísticos ou quedas de grande altura. O segundo e maior pico é observado em idosos, sobretudo mulheres, devido à fragilidade óssea causada pela osteoporose, onde o trauma de baixa energia (quedas ao nível do solo) é suficiente para causar a lesão. A alta energia envolvida nos traumas de jovens frequentemente resulta em lesões de maior gravidade, incluindo fraturas expostas, que apresentam comunicação do foco de fratura com o meio externo, elevando significativamente o risco de infecção e complicações no tratamento.
A classificação dessas fraturas é complexa, e a gravidade é determinada pelo padrão de acometimento articular e pela estabilidade óssea. Em casos de trauma de alta energia, é comum a ocorrência de fraturas com perda óssea significativa, devido ao esmagamento ou à avulsão de fragmentos. Nestas situações, o desafio cirúrgico é maior, podendo exigir técnicas de reconstrução e enxertos ósseos. A falha no tratamento adequado, especialmente na redução anatômica da superfície articular ou na fixação estável, pode levar a sequelas importantes. Entre as mais comuns estão as deformidades angulares (desvios no alinhamento do membro), que alteram a biomecânica do joelho e do membro inferior, resultando em dor, artrose pós-traumática e dificuldade de marcha.
O tratamento da fratura do fêmur distal é predominantemente cirúrgico, visando restabelecer a anatomia e a função do joelho. Em situações específicas, como fraturas expostas grau III (com grande dano tecidual) ou pacientes politraumatizados em estado instável, pode ser indicado o uso de fixadores externos. Estes dispositivos oferecem estabilização temporária ou, em alguns casos, definitiva, permitindo o manejo de partes moles e a estabilização do paciente antes de uma cirurgia de reconstrução mais complexa (controle de danos ortopédico). Embora eficazes, os fixadores externos exigem cuidados rigorosos com os pinos para prevenir infecções. O objetivo final é sempre buscar a consolidação óssea com o melhor alinhamento e mobilidade articular possível.
O prognóstico dessas fraturas é variável e depende diretamente da idade do paciente, do grau de energia do trauma, da presença de lesões associadas (como a exposição e a perda óssea) e da qualidade da redução e fixação cirúrgica. Em pacientes jovens, o potencial de recuperação funcional é alto, mas a reabilitação é longa. Em idosos, o prognóstico é frequentemente menos favorável devido à baixa qualidade óssea, comorbidades e risco de perda da autonomia. Complicações como a não-união (falha na consolidação), infecção e a rigidez articular são desafios comuns. A reabilitação precoce e intensiva é fundamental para mitigar as sequelas, mas a artrose pós-traumática e algum grau de limitação funcional do joelho podem persistir, mesmo com o tratamento ideal.
Referência:
Varela, J. et al. Distal femoral fractures: current concepts in surgical management. EFORT Open Reviews, v. 8, n. 4, p. 195-207, 2023.
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