O Fêmur Curto Congênito (FCC) é uma malformação rara do esqueleto que se manifesta por um encurtamento do fêmur, com uma incidência estimada de 1 a 20 casos por 200.000 nascimentos. Esta condição frequentemente se apresenta com anomalias associadas na articulação do joelho, incluindo instabilidade e alterações no desenvolvimento dos ligamentos, principalmente os cruzados (anterior e posterior) e, em menor grau, os colaterais. A epidemiologia dessas alterações ligamentares é intrinsecamente ligada à gravidade do FCC, pois o desenvolvimento anômalo da epífise femoral distal e do côndilo pode resultar em um joelho instável ou flutuante, predispondo a subluxações ou luxações da patela e da articulação tibiofemoral.
A apresentação clínica em pacientes com FCC e alterações ligamentares é dominada pela instabilidade do joelho e pela discrepância do comprimento do membro. O exame físico tipicamente revela um joelho com amplitude de movimento alterada e, em muitos casos, frouxidão ligamentar significativa, podendo se manifestar como um teste de gaveta positivo para o ligamento cruzado anterior (LCA) ou posterior (LCP). A subluxação ou luxação do joelho, que é comum em casos mais graves de FCC (tipos C e D da classificação de Paley), está diretamente relacionada à hipoplasia ou agenesia dos ligamentos cruzados. A instabilidade compromete a função de marcha e a capacidade de suportar peso, contribuindo para a claudicação e a dor. O diagnóstico é confirmado por radiografias e ressonância magnética, que avaliam a estrutura óssea e o status dos tecidos moles.
O tratamento cirúrgico dessas alterações ligamentares, frequentemente realizado em conjunto com procedimentos para correção da discrepância de comprimento do membro (como alongamento ósseo ou epifisiodese contralateral), visa estabilizar o joelho e melhorar a função. A reconstrução ligamentar é indicada em joelhos instáveis, sendo a reconstrução do LCA e/ou LCP o foco principal. Devido às anormalidades anatômicas (p. ex., côndilos femorais hipoplásicos ou ausência de notch intercondilar), a técnica pode ser desafiadora e exigir a criação de novos túneis ósseos ou o uso de procedimentos de transferência tendinosa. O prognóstico a longo prazo depende da gravidade inicial do FCC, do sucesso da estabilização do joelho e da correção da discrepância. Embora a reconstrução ligamentar possa melhorar a estabilidade e a função, esses pacientes geralmente requerem acompanhamento contínuo e podem necessitar de cirurgias adicionais ao longo do crescimento.
Referências:
Silva, W.N., Pinto, A. F., Machado, J. C., Lopes A. A. M.: Anormalidade do Joelho no Fêmur Curto Congênito: Revista Brasileira de Ortopedia e Traumatologia. v. 33 (8); 607-610, 1998.